Enquanto petroleiras e governos querem extrair até a última gota de óleo, atividades atropelam Unidades de Conservação e Terras Indígenas.

Imagem postada em: CLIMAINFO
As ameaças à Floresta Amazônica vão além do desmatamento e do garimpo ilegal. Em 50 anos, a busca por combustíveis fósseis no bioma destruiu vegetação nativa, contaminou águas, emitiu gases de efeito estufa, invadiu Territórios Indígenas e Unidades de Conservação e aprofundou desigualdades sociais. A riqueza e o desenvolvimento prometidos pelos defensores do petróleo não chegou. Uma nova onda exploratória ameaça dar continuidade a essa história, agravando ainda mais as mudanças climáticas, causadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis.
Quase um quinto das reservas mundiais de petróleo descobertas entre 2022 e 2024 está na região amazônica, principalmente na costa da Guiana e do Suriname, mostra uma reportagem especial da InfoAmazonia, reproduzida pela Folha. Cerca de 5,3 bilhões dos 25 bilhões de barris equivalentes de petróleo (beps) descobertos no mundo nos últimos dois anos estão na região amazônica, indica o Global Energy Monitor (GEM).
Além das reservas já identificadas e de áreas em produção, a Amazônia tem um grande número de blocos delimitados para a busca de petróleo e gás: são 794, sendo 70% ainda em fase de estudo. O único país em que não há blocos petrolíferos é a Guiana Francesa, onde os contratos são proibidos desde 2017.
A nova onda exploratória coloca em risco um bioma essencial para o equilíbrio climático global e as populações que nele vivem. “Não adianta falar em desenvolvimento sustentável se a gente segue explorando petróleo”, disse o líder indígena guianense Mario Hastings. “Precisamos de uma mudança real, que inclua as comunidades indígenas e respeite nossos direitos”, completou.
Repetindo a velha fórmula colonialista, a expansão da exploração de combustíveis fósseis na Amazônia se vale de acordos desfavoráveis às populações tradicionais, provoca conflitos internos em comunidades impactadas e atrai grupos armados a áreas ricas em recursos naturais e carentes de serviços e da presença estatal. A análise mostra que 81 blocos concedidos se sobrepõem a 441 Terras Indígenas, e outros 38 afetam 61 e Unidades de Conservação. Entre as áreas em fase de estudo ou oferta, 114 estão situadas em TIs e 58 em áreas naturais protegidas.
No Brasil, a abertura de uma fronteira exploratória de combustíveis fósseis na Amazônia se concentra no mar. Além da foz do Amazonas, as bacias marítimas ligadas ao bioma são Pará-Maranhão e Barreirinhas, no litoral maranhense, que têm áreas concedidas ou em estudo. O bloco FZA-M-59, para o qual a Petrobras pleiteia licença no IBAMA para perfurar um poço exploratório, não é o único já sob concessão na foz. E a Agência Nacional do Petróleo (ANP) promoverá um leilão em junho que poderá oferecer outras 47 áreas na região. A licença, aliás, é considerada a “porteira a ser aberta” para explorar a foz.
O que marca a exploração de combustíveis fósseis na região amazônica é um imenso estrago ambiental, social e climático. Grandes vazamentos de petróleo marcam o histórico dessa atividade no Equador, no Peru e na Colômbia. A queima de gás fóssil nos campos de produção afeta a saúde das populações do entorno. E as comunidades continuam sem acesso a serviços básicos e sem uma vida digna.
Luiz Afonso Rosário, da 350.org Brasil, destaca que há décadas o petróleo é apresentado como uma promessa de libertação econômica para os países da América do Sul. No entanto, “o que nós vemos são todas as mazelas sociais que aí estão, e só meia dúzia enriqueceu”, frisou.
Para Rosário, o abismo entre as promessas e a realidade na Amazônia traz uma necessidade urgente de um debate mais amplo e inclusivo sobre o futuro do bioma. “Vão rasgar a Amazônia com mais infraestrutura para privilegiar a indústria fóssil. Deveríamos estar investindo em energias renováveis”, alertou.
FONTE: CLIMAINFO – Amazônia desponta como nova fronteira global do petróleo – ClimaInfo
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