Ele é um dos dois candidatos brasileiros indicados pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil ao Prêmio ALMA, um dos mais importantes do mundo na categoria de literatura infantojuvenil que fará o anúncio do grande premiado em 1º de abril, na Feira do Livro da cidade de Bolonha. Daniel Munduruku, renomado escritor indígena nascido em Belém, no Pará, é autor de mais de 60 obras voltadas especialmente ao público infantojuvenil e para a promoção da diversidade cultural indígena no Brasil.

Daniel Munduruku ao conceder entrevista à Rádio Vaticano – Vatican News

“A contribuição que a literatura e a poesia podem oferecer é de valor inigualável”, escreveu o Papa Francisco em uma carta sobre o papel da literatura na educação endereçada em agosto de 2024 aos candidatos ao sacerdócio, mas também a agentes pastorais e todos os cristãos. A literatura, reforçou ainda o Pontífice, educa o coração e a mente e abre à escuta dos outros, ajuda a enfrentar a vida e a compreender os outros. Como vem fazendo Daniel Munduruku ao usar a literatura para ensinar às novas gerações a valorizar a cultura dos povos originários. Uma causa reconhecida no Brasil e também internacionalmente: além de prêmios como o Jabuti no Brasil – a consagração literária mais tradicional do país – e o da Unesco, o escritor chegou nesta quarta-feira (26/03) na Itália por ter sido indicado ao Prêmio ALMA 2025 (Astrid Lindgren Memorial Award), um prêmio sueco, o maior e um dos mais importantes do mundo na categoria de literatura infantojuvenil para a promoção da leitura a crianças e jovens.

“É uma espécie de Oscar da Literatura Infantojuvenil que reconhece o trabalho de autores no mundo todo e eu estou aqui por esse motivo.”

A indicação ao Prêmio ALMA

De passagem por Roma, antes de participar do anúncio oficial de 1º de abril na Feira do Livro na cidade de Bolonha (que simultaneamente também será realizado em Estocolmo e via streaming), Daniel concedeu entrevista à Rádio Vaticano – Vatican News para compartilhar a alegria da indicação do seu nome – junto com o de Roger Mello – pela Fundação Nacional  do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), a seção brasileira do International Board on Books for Young People (IBBY Brasil). O IBBY é uma organização internacional sem fins lucrativos com status oficial na Unesco e no Unicef. A entidade brasileira propôs o nome de Daniel seguindo os critérios de indicação direcionados para um trabalho às crianças e jovens que fosse “da mais alta qualidade artística” e que refletisse “o mesmo espírito profundo de humanidade que caracterizou o trabalho da própria Astrid Lindgren“, comprometida com a promoção dos direitos das crianças.

O prêmio literário, criado em 2002 pelo governo sueco para promover o direito de toda criança acessar boas histórias, reconhece escritores, ilustradores, organizações e outras personalidades que se dedicam à promoção do livro e da leitura para crianças e jovens em todo o mundo. Um total de 265 candidatos de 72 países e regiões foram indicados, incluindo 81 indicações inéditas. O prêmio global é atribuído anualmente para uma pessoa ou organização. Esta é a décima indicação de Roger e a primeira de Daniel Munduruku.

A literatura indígena brasileira bem representada

O prêmio é para um conjunto completo de trabalhos, como é o caso de Daniel, que tem 65 livros publicados, em obras voltadas especialmente para o público infantojuvenil. Além de escritor, é professor, palestrante, defensor da cultura indígena e vereador. É graduado em Filosofia, História e Psicologia, com mestrado em Antropologia Social e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), e pós-doutorado em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), além de diretor-presidente do Instituto Uk’a – Casa dos Saberes Ancestrais, que fica em Lorena, em São Paulo. Atuou como educador social de rua pela Pastoral do Menor de São Paulo. Esteve em vários países da Europa, participando de conferências e ministrando oficinas culturais para crianças. Em 2023, ampliou sua atuação cultural ao interpretar o Pajé Jurecê na novela “Terra e Paixão”, da Rede Globo.

Um dos maiores representantes da literatura indígena no Brasil, Daniel nasceu em Belém, no Pará, de onde propaga a cultura Munduruku, um povo originário da região amazônica. Daniel faz parte de um grupo de cerca de 100 autores indígenas que produzem literatura atualmente no país, como ele mesmo conta:

“Eu faço parte do universo dos povos indígenas no Brasil. Existe uma literatura indígena que está cada vez mais se fortalecendo e está crescendo com muita qualidade, com muita arte e está se impondo no Brasil como literatura e até como uma escola literária. Sendo eu um dos pioneiros nessa pauta da literatura infantojuvenil, eu estou com o coração, assim, esperançoso e feliz. A indicação em si, para quem é indicado, certamente já é um prêmio, porque é um reconhecimento. Significa que tem gente fora do Brasil lendo e conhecendo essa literatura. Então, isso já faz a gente ficar muito feliz e com a certeza de que tem valido a pena a gente investir nesse segmento. E sobretudo para fazer essa ponte entre os povos indígenas, que são tão pouco reconhecidos no Brasil, com a sociedade brasileira que é uma sociedade que foi educada para não gostar dos povos indígenas. E a gente, com a literatura, talvez fazendo o mesmo trabalho que a Astrid (Lindgren) fez lá nos anos 40 do século 20, a gente está fazendo provavelmente esse mesmo trabalho que é afetar o coração das crianças para essa novidade que os povos indígenas trazem, com esse olhar que os povos indígenas trazem sobre a vida e uma realidade em que as pessoas tendem a não querer conhecer porque foram impedidas de conhecer. Então, eu estou muito feliz pela indicação, não tenho apego efetivamente ao prêmio, se vou vencer ou não, mas o reconhecimento do trabalho já é uma grande conquista. Eu estou superfeliz.”                                                  

 

Andressa Collet – Vatican News – Daniel Munduruku, indicado ao maior prêmio da literatura infantojuvenil, já está na Itália – Vatican News