Em 06 de fevereiro publicamos na conceituada revista BioScience, do Instituto Americano de Ciências Biológicas (AIBS), um texto explicando alguns dos riscos que os projetos amazônicos do governo brasileiro trazem ao Brasil e ao mundo. Aqui trazemos este material em língua portuguesa. O trabalho original [1] está disponível aqui.

A 29ª conferência das partes da convenção climática das Nações Unidas (COP 29) começou cheia de promessas em Baku, Azerbaijão. Essas reuniões anuais tentam abordar a crise climática que está agravando, e as negociações deste ano deixaram muitas questões cruciais sem solução. Nos últimos anos, uma série de desastres e eventos extremos alimentados pelo clima, como incêndios florestais na Austrália, secas e incêndios na Amazônia, inundações no sul do Brasil, o furacão Milton no Golfo do México e inundações na América do Norte e na Espanha causaram estragos em todo o mundo. A trajetória ascendente contínua das emissões de gases de efeito estufa (GEE) sugere que a janela para limitar o aquecimento a 1,5 °C acima da média pré-industrial pode já ter se fechado, dado que já atingimos essa temperatura recorde em 2024 [2].

Ao contrário das grandes potências globais (como Estados Unidos, China e países da União Europeia), cujos principais contribuintes para as emissões de GEE são a queima de combustíveis fósseis, o desmatamento é a principal fonte de emissões em países em desenvolvimento que ainda têm grandes quantidades de cobertura florestal tropical, como Brasil, Bolívia, Peru, Indonésia e República Democrática do Congo. As florestas tropicais armazenam cerca de 229 bilhões de toneladas de carbono em sua vegetação lenhosa viva acima do solo [3], e a conservação dessas áreas é vital para a mitigação das mudanças climáticas [4]. A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, desempenha um papel crucial na estabilidade climática do planeta. A porção brasileira da região armazena cerca de 59 bilhões de toneladas de carbono na vegetação acima e abaixo do solo [5], enquanto os outros países armazenam cerca de 20 bilhões de toneladas [6]. Os estoques no solo são ainda maiores, com 93 bilhões de toneladas apenas no metro superior do solo em toda a Amazônia [7]. O Brasil, que detém mais de 60% da floresta amazônica, tem um papel vital na contenção do aquecimento global e pode liderar a agenda climática global se complementar suas atuais medidas de controle do desmatamento com a reversão de suas muitas políticas e planos que implicam aumento de emissões futuras.

O Brasil está se esforçando para reduzir o desmatamento e implementar sua Política Nacional de Transição Energética [8] A taxa estimada de desmatamento na Amazônia brasileira para o período de agosto de 2023 a julho de 2024 foi de 6.288 km2, representando uma redução de 30,6% em comparação com o período anterior de 12 meses e marcando a menor taxa dos últimos nove anos [9]. No entanto, esses dados incluem apenas o corte raso da floresta (ou seja, o desmatamento) e excluem a degradação florestal causada pela exploração madeireira seletiva e os incêndios muito intensos que ocorreram durante o mesmo período. Além da desaceleração na perda da floresta amazônica, o desmatamento do Cerrado também diminuiu. Essas mudanças positivas refletem os resultados das operações de comando e controle do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Brasil. Estimulado por esses resultados encorajadores, na COP 29 o Brasil apresentou um Compromisso Nacionalmente Determinado, ou NDC, revisado, prometendo reduzir as emissões do país em 59-67% até 2035 em relação às emissões do país em 2005 (um ano com desmatamento muito alto). Embora anunciadas como “ambiciosas”, ações governamentais conflitantes correm o risco de tornar essa meta totalmente inatingível [10]. Os planos atuais do governo brasileiro contradizem a narrativa oficial ao apoiar três erros fatais na Amazônia: 1.) extração de petróleo na foz do Rio Amazonas (Figura 1A); 2.) reconstrução de 407 km da rodovia BR-319 (Manaus – Porto Velho) (Figura 1B e C); e 3.) construção de 933 km da Ferrovia Ferrogrão (Sinop-Miritituba) (Figura 1D).

Imagem postada em: Amazônia Real

ÍNTEGRA DA POSTAGEM DISPONÍVEL EM: AMAZÔNIA REAL 

Por Cássio Cardoso Pereira, Domingos de Jesus Rodrigues, Rodolfo Aureliano Salm e Philip Martin Fearnside

FONTE: Projetos na Amazônia trazem riscos ao Brasil e ao mundo – Amazônia Real